O acordo Mercosul-União Europeia (UE) é um marco relevante para a política comercial brasileira. Para Mato Grosso, seus efeitos vão além do potencial de aumento das exportações, impactando estruturalmente a competitividade do estado. Representa uma oportunidade concreta, mas exige análise detalhada.
Impactos Iniciais e Barreiras Regulatórias
No curto prazo, segmentos agroindustriais mato-grossenses como carne e bioenergia, especialmente o etanol, tendem a sentir os efeitos do acordo mais diretamente. Esses setores enfrentam elevadas barreiras tarifárias no mercado europeu. A redução dessas tarifas pode viabilizar exportações antes inviáveis economicamente, embora aumente a exposição à concorrência em um mercado altamente regulado e exigente.
É fundamental destacar que a liberalização prevista não implica abertura plena. O acesso ao mercado da UE acontece por cotas limitadas, protegendo mercados sensíveis. Adicionalmente, existem obrigações externas ao acordo, como o Regulamento Europeu do Desmatamento, que estabelece exigências de rastreabilidade e comprovação de que produtos agropecuários não estão associados ao desmatamento posterior a 2020.
As Cotas para Proteína Animal
Tomando como exemplo as cotas de proteína animal, o Mercosul poderá exportar 99 mil toneladas de carne bovina para a União Europeia, com tarifa de 7,5% dentro dessa cota. Acima desse volume, a taxa sobe significativamente, limitando a competitividade e as vendas.
O ponto crítico é o tamanho dessa cota frente à realidade produtiva de Mato Grosso. Em 2025, o estado exportou 978,4 mil toneladas de carne bovina, segundo a Secex. Desse total, 10,8% (equivalente a 105,7 mil toneladas) foram destinados à União Europeia.
Isso demonstra que Mato Grosso, sozinho, já exporta para a União Europeia um volume superior à cota total concedida a todo o Mercosul, evidenciando o descompasso entre o limite negociado e a capacidade de fornecimento atual do estado.
Vantagens nas Importações e Ganhos de Eficiência
Um aspecto menos discutido, mas estrategicamente relevante, está no lado das importações. A União Europeia é líder mundial em máquinas de precisão, robótica agrícola e química fina. Com a eliminação das tarifas para esses bens de capital, empresários de Mato Grosso tendem a ter acesso a tecnologias mais baratas, capazes de reduzir custos de produção e elevar a produtividade. Esse efeito, muitas vezes indireto, é fundamental para mitigar o 'Custo Mato Grosso' e aprimorar a eficiência no médio e longo prazo.
No entanto, a redução das tarifas para importações de produtos europeus pode impactar alguns setores mato-grossenses, como o de produtos lácteos, gerando desafios para a concorrência local.
Perspectivas Finais e o Desafio da Concretização
Apesar desses desafios, o acordo representa uma oportunidade significativa para aumentar as exportações. Em 2025, o estado foi o quinto maior exportador brasileiro para a União Europeia, com embarques de aproximadamente US$ 3,1 milhões, correspondendo a 10,3% das exportações totais.
No comércio internacional, a competitividade não se restringe à tarifa. O acordo Mercosul-União Europeia pode abrir portas, mas seus efeitos dependerão da forma como as exigências e eventuais sanções serão aplicadas, bem como da evolução e possível revisão das cotas negociadas.
O desafio para Mato Grosso agora é transformar esse potencial em resultados concretos e sustentáveis.
<i>Este conteúdo foi adaptado pela nossa redação a partir de informações originais de O Atual. Imagens: Reprodução / Créditos originais mantidos na fonte.</i>
Fonte: https://oatual.com.br